Durante muitos anos trabalhei na indústria farmacêutica, em empresas de nutrição e suplementação. E, quanto mais aprendia, mais intrigada ficava. Não da suplementação em si, essa continuo a considerar uma ferramenta importantíssima – mas da forma como ela é tantas vezes apresentada: comprimidos que prometem tudo, fórmulas intermináveis, misturas aparentemente “completas”, combinações pensadas para caber num rótulo apelativo e não necessariamente numa lógica fisiológica coerente. A indústria habituou-nos à ideia de que mais ingredientes significa melhor produto. Nem sempre é assim. Aliás, muitas vezes é precisamente o contrário.
A pergunta que mais oiço continua a ser esta: “Mas será que preciso mesmo de suplementar? Se eu como bem, isso não devia chegar?” A minha resposta, hoje, é franca: por vezes chega, muitas vezes não. E não digo isto para promover dependência de cápsulas. Digo-o porque a vida moderna cobra muito ao corpo. O stress crónico, a inflamação silenciosa, a pior qualidade do sono, as alterações digestivas, o uso de medicamentos, as fases hormonais exigentes e a recuperação de infeções deixam frequentemente o organismo mais gasto do que nutrido. Mesmo quando a alimentação é razoável, nem sempre isso garante que os níveis de nutrientes sejam os ideais para responder ao que a vida nos está a pedir.
Foi por isso que comecei a pensar na suplementação como uma pirâmide:
Na base estão os nutrientes sem os quais o corpo não consegue cumprir funções básicas: vitaminas, minerais, eletrólitos, proteína e hidratação correta (água bem utilizada pelas células).
Logo acima, há uma camada que muitas vezes esquecemos, mas que muda tudo: o terreno de assimilação, onde entram a saúde intestinal, a microbiota, os probióticos e tudo o que condiciona a forma como o corpo absorve e utiliza aquilo que toma.
No meio estão os blocos de construção e suporte funcional: aminoácidos, ómega-3, alguns extratos vegetais e estratégias mais dirigidas.
No topo estão moléculas e compostos de ação mais ampla, capazes de modular sistemas inteiros, de trabalhar em terreno e de apoiar regulação. É aí que coloco alguns suplementos de longevidade, alguns compostos bioativos e, muito particularmente, os cogumelos funcionais. E, no caso deles, há uma particularidade importante: embora os veja no topo pela amplitude e inteligência biológica da sua ação, sinto-os também como aliados da base, porque ajudam a reduzir inflamação, a modular a imunidade e a devolver ordem a funções fisiológicas fundamentais. Ou seja, não substituem os nutrientes essenciais, mas podem ajudar o corpo a aproveitá-los melhor e a assentar essa base com mais solidez.
Essa é, para mim, a grande lição da suplementação: não faz sentido investir no topo se a base está a falhar, mas também há compostos de topo que ajudam a reconstruir a própria base.

Vamos começar pela base
Na base da pirâmide estão os essenciais. E quando digo essenciais, digo literalmente essenciais: aquilo sem o qual o corpo não produz energia de forma eficiente, não regula adequadamente o sistema nervoso, não fabrica enzimas, não sustenta músculo, não repara tecidos, não metaboliza hormonas, não lida bem com o stress oxidativo e não mantém uma resposta imunitária funcional. É aqui que entram magnésio, zinco, selénio, vitamina D, ferro quando necessário, vitamina B12, especialmente em mulheres com risco acrescido de carência ou má absorção, proteína suficiente e hidratação correta. Sem este alicerce, o resto pode até ser interessante, mas será sempre menos eficaz.
Nas mulheres a partir dos 40, esta base torna-se ainda mais importante. A perimenopausa e a menopausa não são apenas uma questão de ondas de calor ou de alterações menstruais. São uma reorganização profunda do terreno biológico: muda a composição corporal, piora frequentemente a qualidade do sono, altera-se a sensibilidade à insulina, enfraquece-se a reserva muscular, aumenta a vulnerabilidade à inflamação, muda o humor, muda a forma como recuperamos. Por isso, suplementar nesta fase não deveria ser um impulso aleatório, mas uma estratégia pensada.
Selénio, zinco, magnésio e ferro: quatro bases que merecem mais atenção
O selénio é um daqueles micronutrientes discretos que quase nunca entra nas conversas populares sobre suplementação, mas devia. Eu própria só lhe dei verdadeira atenção depois de uma fase em que o Covid me deixou completamente KO, sem energia, sem capacidade de recuperação, como se o corpo tivesse ficado sem reservas nenhumas. Na altura, uma colega médica da empresa onde eu trabalhava chamou-me a atenção para este mineral e, quando fui ler melhor, tudo começou a fazer sentido.
O selénio tem uma função antioxidante muito relevante e é também indispensável para a tiróide, porque participa nas enzimas que ajudam a ativar e a regular as hormonas tiroideias. Hoje olho para trás e penso que, no meu caso, provavelmente já havia algum terreno de desequilíbrio hormonal e inflamatório, e isso pode ter tornado o selénio ainda mais importante. Depois de uma infeção como o Covid, quando o corpo fica mais inflamado, mais oxidado e metabolicamente lento, apoiar a tiróide e a defesa antioxidante pode fazer uma diferença real na recuperação. E foi exatamente isso que senti: uma energia mais sólida, como se o corpo voltasse a ganhar base.
O zinco merece também muito mais respeito. Participa na imunidade, na reparação tecidular, na síntese proteica, na pele, no cabelo, na fertilidade, no paladar, no olfato e em centenas de reações enzimáticas. Mas aqui entra uma das regras mais importantes da suplementação: não basta saber o que tomar; é preciso perceber com o que não convém misturar. O exemplo clássico é o do ferro com o zinco. Quando tomados juntos, sobretudo em doses suplementares, podem competir entre si ao nível da absorção intestinal. Ou seja: estamos a tentar ajudar o corpo e, sem querer, estamos a criar disputa à porta de entrada. É precisamente por isso que mais à frente vou falar daquilo a que chamo a farmacocinética doméstica da suplementação: a arte de organizar as tomas para que os nutrientes não se atrapalhem mutuamente.
O magnésio é talvez o mineral mais falado da atualidade e, ao mesmo tempo, um dos mais mal escolhidos. Fala-se de magnésio como se fosse uma única coisa, mas a forma importa:
- O citrato é frequentemente útil quando, além da reposição, se quer ajudar o trânsito intestinal.
- O bisglicinato tornou-se um favorito de muita gente, e percebo porquê (também é o meu): tende a ser bem tolerado e, na prática, muitas pessoas sentem nele um apoio mais suave ao relaxamento, ao sono e à tensão muscular.
- O treonato ganhou fama por causa da esfera cognitiva e neurológica, e a investigação recente é de facto interessante em áreas como sono, energia diurna, humor e alguns parâmetros cognitivos.
Há ainda outras formas, como o cloreto ou o malato, que podem fazer sentido em contextos específicos. Isto não significa que seja preciso andar a alternar magnésios só porque sim, nem que exista um magnésio universalmente superior. Significa apenas que o magnésio certo depende da necessidade certa e que, em alguns casos, até pode fazer sentido combinar mais do que uma forma ao longo do dia ou em fases diferentes. O erro está em escolher pela moda e não pela função.
O ferro também merece, para mim, uma nota muito pessoal, porque tem sido uma das minhas lutas ao longo dos anos. Sempre tive a ferritina baixa, por vezes quase a entrar em anemia ferropénica, e sei bem o que isso custa sobretudo depois de menstruar, quando parece que o corpo perde o dobro da força. E o ferro é crítico em muito mais do que a ideia clássica de “não ter anemia”: é importante para energia, foco, humor, capacidade de recuperação e até para a qualidade do sono. Muitas mulheres não fazem ideia de que reservas baixas de ferro podem estar por trás de noites más, pernas inquietas, cansaço arrastado e uma sensação de fraqueza que não passa verdadeiramente. A relação entre ferro e sono tem sido cada vez mais estudada, sobretudo pela sua ligação a sono não reparador e à síndrome das pernas inquietas que podem fazer acordar muitas mulheres à noite sem se aperceberem. Mas atenção, não deve ser tomado ao acaso: se não tens essa falta identificada nas análises, suplementar não faz sentido, porque ferro a mais também pode ser nocivo – pode irritar o intestino e, se se acumular, aumentar o stress oxidativo e sobrecarregar tecidos como o fígado, o pâncreas e o coração.
Segundo nível da pirâmide: os blocos de construção
Proteína, aminoácidos, ómega-3. Aqui está, para mim, uma das grandes falhas da conversa feminina sobre saúde a partir dos 40: fala-se muito de hormonas e pouco de músculo. E músculo não é estética. É reserva metabólica, estabilidade glicémica, força, osso, autonomia, recuperação e até clareza mental. Se queremos envelhecer com mais lucidez, menos fragilidade e melhor metabolismo, preservar massa magra passa a ser estratégico. E se queremos arrumar a glicose no sítio certo, nada melhor do que usar a força: às vezes, uns pesos com os braços podem até ajudar a tirar a gordura da barriga. Dito de forma menos graciosa e mais fisiológica, o músculo é um dos grandes destinos da glicose e um dos maiores aliados da sensibilidade à insulina. E a insulina é, simplesmente, uma das hormonas mais importantes para o nosso bem-estar, envolvida em tudo, desde a energia e clareza mental até à gestão da gordura, da inflamação e do envelhecimento metabólico.
Os aminoácidos merecem também um lugar próprio nesta pirâmide. São matéria-prima para músculo, enzimas, neurotransmissores, imunidade, reparação e sinalização celular. Gosto de imaginar o corpo como uma cidade inteligente: as membranas têm portas e vias próprias, com transportadores que regulam o trânsito, e os aminoácidos são algumas das cargas mais nobres que circulam nessa rede. Sem eles, não há boa construção, boa reparação nem boa comunicação interna. Esta imagem ajuda-nos a perceber que a qualidade da proteína importa tanto como a quantidade, e que o corpo não distribui nutrientes ao acaso. Nas fases mais exigentes da vida feminina, esta logística torna-se ainda mais importante, não só para músculo e metabolismo, mas também para cognição, foco e estabilidade emocional. E aqui vale a pena tranquilizar: se já tomas uma proteína completa e de boa qualidade, com todos os aminoácidos essenciais, então à partida esta base está assegurada sem que tenhas de pensar demasiado nisso.
O topo da pirâmide: a sofisticação biológica
É aqui que coloco compostos que não servem tanto para “preencher falhas”, mas para afinar terreno, energia celular, resiliência e envelhecimento metabólico. Penso, por exemplo, na creatina, no NAC, no ácido alfa-lipóico e em algumas estratégias ligadas ao NAD+, como o NMN ou o resveratrol.
A creatina merece, para mim, um destaque muito especial nas mulheres, e ainda continua subestimada. Não é apenas um suplemento de ginásio: pode ser uma aliada muito relevante para força, massa magra, desempenho muscular, recuperação e até função cognitiva, numa fase da vida em que preservar músculo e energia mental passa a ser estratégico.
O NAC e o ácido alfa-lipóico vejo-os como compostos particularmente interessantes quando há desgaste oxidativo, neuroinflamação, cansaço celular ou necessidade de apoiar vias antioxidantes mais profundas, eu pessoalmente sempre senti esta necessidade, o meu cérebro é um forninho dentro do meu corpo e às vezes tenho de o ‘resfriar’ para não aquecer demasiado a máquina.
Já os precursores de NAD+ e compostos como o resveratrol parecem-me fascinantes pela forma como dialogam com energia, longevidade e reparação, embora aqui eu ache importante dizer que o entusiasmo já é grande, mas a maturidade da evidência humana ainda não é igual em todos os casos. São suplementos de topo não porque sejam dispensáveis, mas porque entram numa fase em que já estamos a pensar em otimização fina, inteligência metabólica e proteção de longo prazo.

Se tivesse de escolher 1 suplemento de topo seria a creatina pelo que já comentei sobre a importância de manter massa magra/músculo (mais saúde cognitiva) nas mulheres a partir dos 40 e não é estético. Obviamente os cogumelos funcionais para mim são transversais à pirâmide mas estando no topo pela sua inteligência biológica também os escolheria.
Mas antes do suplemento, o terreno
Mas antes de discutir suplementos específicos, há uma pergunta mais funda: em que terreno é que esse suplemento vai cair? Porque nenhum nutriente atua no vazio.
O corpo responde sempre a partir do seu terreno de base. E esse terreno é feito de inflamação, glicorregulação, digestão, sono, ritmo circadiano, sistema nervoso e capacidade de reparação. Se o organismo vive em modo de alarme, com cortisol alto, glicose instável, pouco descanso e excesso de inflamação silenciosa, até uma boa suplementação perde eficácia. A primeira grande lição que aprendi foi esta: o corpo não aproveita bem aquilo que não consegue integrar.
Inflamação, intestino e absorção: o que sabota a suplementação
A inflamação crónica de baixo grau é um dos grandes sabotadores invisíveis da vitalidade feminina. Não falo da inflamação aguda, útil e necessária, mas daquela névoa fisiológica persistente que se manifesta como cansaço arrastado, inchaço, pele reativa, dores difusas, dificuldade em perder gordura abdominal, mente pesada e sensação de que o corpo está sempre a trabalhar contra nós. Nesta fase da vida, ela cruza-se muitas vezes com alterações hormonais, pior recuperação, má qualidade do sono, menor flexibilidade metabólica e maior sensibilidade ao stress oxidativo. E enquanto esse pano de fundo não acalma, a suplementação tende a funcionar pela metade.

A saúde intestinal merece um capítulo próprio porque é dela que depende grande parte da absorção, tolerância e resposta à suplementação. Quando a microbiota está empobrecida, quando há digestão deficiente, quando a barreira intestinal está mais fragilizada ou quando vivemos num padrão constante de irritação alimentar e stress, o corpo não só absorve pior como responde pior.
É por isso que eu desconfio sempre de estratégias que se resumem a “tome um probiótico e pronto”. Probióticos podem ser úteis, sim, inclusive durante a toma de antibiótico (quando bem escolhidos e separados no horário da toma do antibiótico, defendo tomar enquanto se toma o antibiótico ao contrário de algumas correntes). Mas nada faz milagres num terreno continuamente alimentado por excesso de açúcar, ultraprocessados, falta de fibra, mastigação insuficiente e stress permanente. Não faz sentido tentar repovoar um jardim enquanto se continua a regá-lo com aquilo que o destrói. Bons alimentos são a melhor ‘terra’ que podemos dar aos nosso jardim.
E aqui chegamos a uma das partes menos faladas e mais decisivas da suplementação: as interações de absorção: há nutrientes que cooperam e há nutrientes que competem. Ferro, zinco, cálcio e magnésio, por exemplo, podem interferir entre si quando tomados ao mesmo tempo em doses relevantes, porque partilham vias de transporte e condições de absorção semelhantes no intestino. O ferro também é particularmente sensível ao contexto: pode ver a sua absorção prejudicada por cálcio, por certos polifenóis como os do chá e do café, e por baixa acidez gástrica. Já vitaminas lipossolúveis, como a vitamina D, beneficiam de ser tomadas com refeição contendo gordura. O ómega-3 também. Há suplementos que pedem vazio; há outros que pedem companhia. E perceber isto muda tudo. É por isso que sou tão crítica das fórmulas “tudo-em-um”: parecem cómodas, mas muitas vezes reúnem no mesmo comprimido ingredientes que, biologicamente, preferiam manter alguma distância.
Fitoterapia e inteligência natural: não basta ser natural para ser certo
Há depois um grupo de suplementos que muitas mulheres procuram em fases de maior turbulência hormonal: a fitoterapia e as plantas funcionais. E aqui digo: eu sou absoluta defensora, adoro este tipo de suplementação natural e o mais íntegra possível e vejo nas plantas um valor enorme. Mas é preciso entendê-las bem. É preciso olhar para as doses, para os tipos de extração, para a concentração real dos compostos ativos e, depois, fazer a pergunta mais importante de todas: isto faz sentido para mim, nesta fase, neste corpo e com este objetivo? Esse é, para mim, um dos grandes segredos da fitoterapia feminina. Porque muitas destas plantas não devem ser vistas como soluções genéricas “para hormonas” por exemplo, mas como ferramentas que podem fazer mais ou menos sentido consoante a fase da mulher, o tipo de sintomas e o padrão biológico em causa.
O Vitex é um bom exemplo: tende a fazer mais sentido em mulheres que ainda ciclam e que têm sintomas associados à fase lútea, síndrome pré-menstrual, tensão mamária ou irregularidade com esse perfil. Já noutras fases da vida, o seu lugar pode ser muito menor. O hibisco pode fazer sentido numa pessoa com tendência para tensão alta, mas não necessariamente noutra com tensão baixa e fadiga. Mas é precisamente aqui que a fitoterapia ganha relevância: não apenas por um suposto princípio ativo milagroso, mas pelo espectro amplo de compostos bioativos que uma planta ou um extrato pode oferecer, muitas vezes em interação sinérgica entre si e que muitas vezes não encontramos no compostos desenvolvidos sinteticamente. Este espectro é algo que vejo também nos cogumelos funcionais: não atuam por uma única molécula isolada, mas por um conjunto inteligente de componentes que podem dialogar com vários sistemas ao mesmo tempo e que por genialidade da natureza interpotenciam-se.
Tal como em tudo o resto, a pergunta correta não é “isto é bom?”, mas “isto é indicado para mim, nesta fase, e para este objetivo?”.
Cogumelos funcionais: regulação, terreno e ordem fisiológica
Não posso deixar de fazer referência aos cogumelos funcionais, que para mim ocupam um lugar muito especial nesta pirâmide. Se estão no topo, não é porque sejam supérfluos; é porque operam com uma inteligência biológica mais abrangente. São, na minha experiência e na forma como leio a fisiologia, um aliado permanente e inestimável. Não trabalham apenas num sintoma ou numa carência isolada. Trabalham em terreno, em regulação, em organização interna. Ajudam a reduzir a inflamação, a modular a resposta imunitária, a apoiar o sistema nervoso e a devolver clareza a um corpo que ficou preso em alerta.

Quando digo que ajudam a organizar a cascata fisiológica, refiro-me precisamente a isto: quando o stress crónico, o cortisol, a glicose desregulada, a inflamação e a fadiga começam a alimentar-se uns aos outros, o organismo entra numa sequência viciada. Os cogumelos, sobretudo quando usados com consistência, ajudam a reintroduzir ordem nessa sequência. Não substituem os básicos, mas tornam-se profundamente transversais à sua eficácia. Descobri-os precisamente quando achava que estava a fazer tudo bem mas algo nao alinhava – o que eu não sabia era que precisava deles para quebrar alguns padrões fisiológicos, comigo funcionou e funciona até hoje. E é esta cascata fisiológica que precisamos de observar permanentemente, de forma intuitiva, natural sem pensar no assunto mas por ouvirmos o nosso corpo e agirmos em consonância ou/e por introduzirmos suplementação que nos vai apoiar. A chave está no terreno, na base.
Hidratação: a base que quase toda a gente subestima
E por falar em base, há uma lição tão básica que eu própria ignorei durante demasiado tempo: a hidratação. Durante anos achei que beber dois litros de água por dia era sinal de que estava a fazer tudo certo. E, no meu caso, não estava. Só quando comecei a olhar para análises e para sintomas mais subtis percebi que não bastava beber água; era preciso que o corpo a conseguisse gerir bem. No meu caso, a questão do sódio não estava ideal, e percebi que beber mais água, sem atender ao contexto eletrolítico, podia deixar-me ainda mais “diluída”, mais fraca, mais sem eixo. Quando comecei a hidratar-me de forma mais inteligente, com atenção ao equilíbrio entre água e eletrólitos, tudo mudou: energia, clareza, presença física, até aquela tristeza baça sem nome começou a aliviar. Foi uma revelação enorme para mim.
Porque hidratação não é apenas ingestão de água. É equilíbrio de fluidos. É a capacidade de o organismo distribuir e utilizar essa água num contexto em que minerais como o sódio e o potássio estão a cumprir bem o seu papel no volume extracelular, na função nervosa e muscular e na regulação celular.
Isto torna-se ainda mais relevante com a idade. Trabalhei, numa das farmacêuticas por onde passei, um produto destinado a pessoas mais idosas, e uma das coisas que mais me marcou foi perceber como a desidratação pode ser frequente e silenciosa nesta população, sobretudo em lares. A literatura confirma isso: nos mais velhos, alterações do mecanismo da sede, função renal, medicação e fragilidade aumentam o risco de desidratação e de desequilíbrios eletrolíticos. E quando o sódio se desorganiza, mesmo sem um quadro dramático, isso pode associar-se a apatia, fadiga, confusão, pior função cognitiva e menor capacidade funcional. Às vezes procuramos respostas complexas para estados que começam por algo tão elementar como a água mal gerida pelo corpo. E sim: há situações em que beber muita água, sem o contexto eletrolítico adequado, não ajuda e pode até agravar a sensação de fraqueza, de “cabeça vazia” e de desorganização interna.
Qualidade, segurança e critério: nem tudo o que parece bom é bom
E por falar em hidratação e rins, confesso que eu própria já me fiz esta pergunta: Será que tomar muitos suplementos, ou doses mais elevadas, não pode fazer mal ao fígado ou aos rins? A resposta séria é: depende do que se toma, em que doses, com que qualidade e em que contexto clínico. Em pessoas saudáveis, suplementos bem escolhidos, com doses adequadas e critério, não significam automaticamente uma sobrecarga perigosa. O problema está no excesso cego, na sobreposição de fórmulas, nas megadoses sem indicação, na baixa qualidade da matéria-prima e no uso indiscriminado em pessoas com doença renal, hepática ou polimedicação.
E aqui entra outra expressão importante: VRN, ou Valores de Referência do Nutriente, aquelas %’s que vemos nas traseiras dos rótulos. As VRN são valores usados na rotulagem para indicar a quantidade diária considerada suficiente para a população geral saudável. Servem como referência de manutenção. Não foram criadas para responder a défices instalados, contextos terapêuticos ou fases de maior exigência fisiológica. Por isso, 100% da VRN pode ser suficiente para umas pessoas e claramente insuficiente para outras.
A qualidade dos suplementos, aliás, é uma conversa que merecia muito mais espaço. Não chega dizer que um produto é “fabricado na Europa” se a matéria-prima real vem de cadeias pouco transparentes. O que interessa é a origem do ingrediente, a forma química utilizada, a padronização, os testes de pureza, a dose útil e a coerência da fórmula. Em suplementação, como em quase tudo o que toca ao corpo, a sofisticação aparente pode esconder mediocridade prática.
Se não pudermos fazer tudo, escolhemos pelo corpo
E se não pudermos fazer tudo? Então escolhemos pelo corpo. Essa é, para mim, uma das mensagens mais importantes. Se há cansaço arrastado, tensão muscular, irritabilidade e sono leve, talvez o sistema nervoso e o magnésio peçam atenção. Se há pele frágil, queda de cabelo, infeções recorrentes ou má cicatrização, talvez seja altura de olhar para proteína, zinco, ferro, B12 e vitamina D. Se há barriga permanentemente inchada, fezes alteradas, digestão difícil e desconforto após comer, então talvez o ponto de partida não seja comprar mais suplementos, mas tratar o terreno intestinal. Se há nevoeiro mental, tristeza, apatia, falta de força ou uma sensação de “não estou bem em lado nenhum”, talvez seja tempo de investigar sono, inflamação, hidratação, glicemia, proteína, adaptogénios e micronutrientes básicos antes de procurar soluções mais específicas.
No fim, a grande mensagem é ordem
No fim, a grande mensagem não é de complexidade. É de ordem. Suplementar bem é como fazer um bolo: cada ingrediente tem o seu momento, a sua função e a sua proporção. Não se misturam os ingredientes ao acaso, nem se troca a ordem sem esperar consequências. Não se usa manteiga gelada quando a receita pede outra textura, nem se põe o bolo no forno antes de a massa estar bem ligada. E não se espera que um suplemento muito sofisticado corrija um corpo exausto, inflamado, mal hidratado, mal nutrido e biologicamente confuso.
O meu conselho final é simples: não tenhas medo da suplementação; tem respeito por ela. Deixo-te algumas dicas: Cria a tua pirâmide primeiro. Depois para a toma, cria uma rotina visual. Usa caixas organizadoras (nunca pensei que fossem tão úteis). Faz uma tabela horario simples e cola-a no frigorífico. Organiza as tomas por blocos do dia. Aprende meia dúzia de regras de absorção que realmente mudam resultados. E depois ouve o corpo: o sono, as fezes, a pele, a energia, a clareza mental, a forma como acordas, o teu abdómen constantemente inchado ou não, a tua capacidade de recuperação, a tua presença. Porque suplementação não é consumir rótulos. É compreender necessidades. E, quando compreendemos a pirâmide, deixamos de comprar promessas e começamos finalmente a construir de forma sustentada e realmente transformadora da nossa fisiologia.
Se há dias que nem um suplemento consigo colocar no meu corpo, por diversas razões, imagino com a minha mente e com o apoio da respiração, as minhas células a regenerarem-se desde o cérebro, coração, estômago, rins, fígado, baço, intestinos, pele – sei que ajuda.
Esta é uma crónica pessoal, onde partilho experiência vivida, aprendizagem e reflexão. Não pretende substituir aconselhamento médico nem recomendação clínica individual. A suplementação deve ser sempre adaptada à realidade de cada pessoa, ao seu historial, sintomas, análises e objetivos.
